Precisamos mesmo ter um carro?

Mike Rosenberg

Mike Rosenberg, professor do IESE Business School, afirma que a
popularização do carro elétrico e novos modelos de transporte urbano
trariam vantagens para as cidades e empresas

O americano Mike Rosenberg fala um perfeito “espanhol da Espanha”, exceto por alguns deslizes com um “r” americanizado. Na unidade IESE Business School
em Barcelona, Espanha, ele leciona “gestão estratégica” – mas pode
perguntar qualquer coisa sobre carros elétricos e híbridos que ele não
economiza nas palavras para responder. Em suas pesquisas mais recentes,
tem abordado o potencial das fontes alternativas de energia para tornar
diferentes indústrias mais competitivas. A automotiva é uma delas. Nesta
entrevista, ele traz uma série de opções para este e outros setores: do
abandono da ideia do “carro próprio” à possibilidade de usar a energia
do carro elétrico para as necessidades de uma casa.

Você afirma que as empresas poderiam aumentar sua produtividade se investissem mais em energia renovável. De que forma?
No caso de algumas empresas, gerar sua própria energia pode dar
maior segurança ao suprimento de energia. Esse é um tema muito
importante para alguns países.
Na África, existe o problema
da fiabilidade do suprimento de energia. E a capacidade autônoma de
gerar energia, convencional ou alternativa, poderia melhorar o
desempenho de uma empresa. Na área do marketing, algumas companhias
podem tentar ser mais sustentáveis que outras ou argumentar que sua
energia é de fonte limpa. Os consumidores, porém, ainda não pagam mais
por um produto verde. Se o preço for o mesmo, aí elas vão optar pelo
produto verde.

Nos Estados Unidos e na Europa, as
montadoras têm investido muito em veículos elétricos e híbridos.
Paralelamente, aposta-se nos combustíveis renováveis, como o etanol de
cana-de-açúcar e de milho. Se os carros híbridos e elétricos ficarem
mais baratos, para quais situações eles seriam indicados?

O carro elétrico ainda é muito mais caro que o convencional. Por
quê? Porque no custo da energia convencional não contabilizamos o da
emissão de carbono. As despesas decorrentes do impacto climático não
figuram nestes cálculos. Não pagamos uma taxa de carbono. É por essa
razão que os carros elétricos têm um preço muito maior que os
convencionais.

Na produção de um carro elétrico ou híbrido, que fatores o tornam mais caro?
Se
compararmos um carro elétrico e um convencional, quase tudo é igual. As
exceções são o motor, o centro de controle elétrico – equivalente à
caixa de câmbio – e a forma de guardar energia. O motor, algum dia, vai
custar o mesmo. O controle de energia, também. O que não vai ter o mesmo
preço é o tanque de gasolina e o jogo de baterias.
Um
tanque feito de plástico custa para o fabricante uns US$ 20. Um jogo de
baterias varia de US$10 mil a US$ 50 mil. E estou assumindo que o custo
do resto é igual, o que não é verdade, porque os volumes são mais
baixos. Em todo o mundo, a Nissan vendeu até hoje 20 mil unidades do
Leaf (carro 100% elétrico), o que é muito pouco. Como o grande problema
são as baterias, alguns fabricantes estão vendendo os automóveis e
alugando as baterias, já que depois de dois ou três anos elas deixam de
funcionar.

O carro elétrico é apropriado para qualquer país?
Depende
de como o país produz energia elétrica, o carro elétrico pode ser muito
melhor, igual ou pior que o convencional. No Brasil, onde a maior parte
da energia é hidrelétrica, pode-se dizer que é uma grande vantagem
usá-lo. Na China, isso não está claro porque boa parte da energia é
gerada a partir do carvão. O carro elétrico tem outra vantagem pouco
difundida: ele contribui para diminuir a poluição atmosférica local. Não
se trata aqui de combater as mudanças climáticas, mas da fumaça emitida
pelos automóveis. Em Los Angeles, nos Estados Unidos, em México D.F.,
em São Paulo, a qualidade do ar é muito ruim. Deveríamos contabilizar o
custo das doenças relacionadas à má qualidade do ar para ter uma
argumentação mais forte a favor do carro elétrico.

O que pode ser feito para estimular a popularização dos carros elétricos?
Os
governos deveriam impor taxas a todos os automóveis, menos aos
elétricos. Em Londres, se um cidadão quiser entrar na cidade com seu
carro, deve pagar uma tarifa. Pense em uma cidade como São Paulo: se o
governo estipular que o cidadão não poderá circular com seu carro mais
de dois dias pela cidade, a menos que o carro seja elétrico, haveria uma
mudança no cenário. Ou se cobrasse uma taxa por dia para que carros
convencionais entrassem na cidade, haveria um aumento dos elétricos no
país.
Os fabricantes de carros logo iam buscar soluções para os problemas
atuais. Sem esse tipo de ação do governo, é pouco provável que o mercado
se desenvolva. O Brasil pode explorar ainda outra opção. O consumo de
energia elétrica tem picos de maior demanda. As pessoas usam mais
energia durante o dia e menos à noite. Sendo assim, algumas famílias
poderiam ter carros elétricos, recarregá-los durante a noite e
utilizá-los de dia. Estes mesmos veículos podem servir como bateria para
a casa, quando não estiverem rodando.

Para isso, os carros precisariam ser mais baratos.
Ou
subsidiados. Talvez uma empresa geradora de energia tenha interesse em
subsidiar a compra de carros elétricos para carregá-los. Acho difícil só
a demanda do consumidor, sem estímulos, conseguir reduzir o custo do
carro elétrico. Ainda mais no Brasil, um país com tradição agrícola e
estados produtores de cana-de-açúcar muito comprometidos com a produção
de etanol. É pouco provável que o Brasil mude de política e passe a
apoiar mais o carro elétrico que o etanol.

O carro elétrico também é indicado para percorrer longas distâncias como de estradas do Brasil e dos Estados Unidos?
Para viagens de trajetos longos, os carros convencionais são muito mais indicados.
O ideal seria utilizar cada veículo para uma situação diferente.
Se você mora nos arredores da cidade de São Paulo, usa o carro
elétrico. Se vai fazer viagens mais longas, usa o convencional. Essa é a
melhor opção, mas não é a mais barata. Talvez precisemos rever o
conceito de ter um carro. Por que temos que ter um carro? Não sabemos
responder. E se deixarmos de ter carros, e começarmos a compartilhar os
carros? Existem empresas que trabalham com isso. Você entra em um site,
reserva um carro e vai aonde quiser.

Um sistema como esse requer uma mudança cultural?
Claro,
porque hoje existe aquela ideia do “meu carro”. Hoje eu vim trabalhar
com meu carro. Durante o dia, ele poderia estar sendo usado por outras
pessoas. Não existe um modelo único de estímulo ao carro elétrico. Se
houvesse vontade política em um país, seria uma via; o interesse das
companhias de energia de comprar as baterias para os usuários, outra; a
mudança de mentalidade das pessoas, uma terceira opção. Algum desses
fatores poderia ser a chispa para o avanço dos carros elétricos.

As empresas estão perdendo oportunidades por não explorar os negócios que os carros elétricos podem criar?
O
consumo de energia de um carro elétrico é como o de uma geladeira,
talvez duas, que só consomem à noite. Isso para as companhias de energia
é muito atrativo como negócio. Criar um modelo já é algo complexo. Nos
Estados Unidos, em que boa parte da população mora em casas, é bastante
simples que cada casa tenha um carregador de baterias. Se as pessoas
moram em apartamentos, onde vão recarregar os carros? Nos
estacionamentos? A infraestrutura para os automóveis à gasolina está
montada. A necessária para os carros elétricos, não.

Em
alguns países europeus, como Espanha e Reino Unido, o governo vem
retirando os subsídios para que as empresas invistam em energia
renovável. Que conseqüências essas medidas podem ter?
Na
Espanha, as regras do jogo mudaram para os feed-in-tariffs (incentivos
econômicos para o investimento em energias alternativas) para energia
solar e eólica. As companhias de energia tinham obrigação de comprar a
energia por um dado preço de quem investiu nas instalações. O que
aconteceu é que o governo não tem dinheiro para pagar o preço combinado.
Pior: está pedindo que o investidor devolva o dinheiro que recebeu pela
energia nos últimos quatro anos. Este caso está nos tribunais. O
problema desse episódio é que no modelo de feed-in-tariffs, o investidor
precisa ter a confiança de que vai recuperar seu investimento. Se as
regras do jogo mudam, perde-se a confiança. Mas a Alemanha e a Espanha
conseguiram incentivar muito o setor de energia solar por este método. O
mesmo poderia acontecer com o Brasil, desde que com regras claras.

Por:

Clarice Couto
Fonte: Época Negócios

Um comentário em “Precisamos mesmo ter um carro?

  • 02/01/2012 em 13:20
    Permalink

    As perguntas e respostas foram bem elaboradas para focar nos pontos que dizem ser fracos quanto ao carro elétrico.
    Na resposta sobre custo do carro elétrico como se explica a E-Day Life produzir um carro elétrico por apenas US$10.000 dólares? Como conseguem fazer um carro elétrico tão barato?Também faltou falar sobre os kits de conversão para elétrico, tornando o carro similar aos 15.000 taxis elétricos que já circulam na China e que aqui poderia custar R$6.000 reais, se a política do governo promovesse o carro elétrico. Hoje nosso estado promove o Lucro Brasil das Montadoras que lucram aqui 4x mais que no resto do mundo e promovem a combustão. Um teste de segurança recente divulgado na CBN mostrou que pagamos caríssimo por um carro a gasolina em 2011 que tem tecnologia de 1990 e no item segurança 1 a 6 tiraram na maioria nota 1. A realidade é que hoje temos 5 milhões de carros elétricos circulando no mundo e aqui ninguém tem acesso a esta tecnologia. Dos aproximados 90 carros elétricos no Brasil, 95% pertencem as distribuidoras de energia. Porque será?
    Quanto ao álcool, alguém sabe quantos litros de diesel são gastos para produzir 1 litro de álcool e quantos metros cúbicos de gás da Petrobrás são vendidos para as usinas de álcool para produzir este mesmo litro de álcool.
    Já estamos pagando um preço muito alto e vamos ser sacudidos pelo resto do mundo acusados de manter uma política de destruição, sonhando com um pré-sal que nem existe.
    Ou acordamos e banimos este protecionismo corrupto a uma elite que tem discurso patriótico mas na verdade é gananciosa e destruidora.

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