Designer brasileiro da Volkswagen fala sobre criar nova linha de elétricos

Marco Pavone, chefe de design exterior, criou up! e o novo Polo, mas agora enfrenta o desafio de reinventar a marca

A Volkswagen promete uma grande virada nos próximos anos: terá uma ampla gama de carros elétricos e semi autônomos. Os representantes dessa nova fase da montadora são os membros da família I.D, que devem começar a chegar ao mercado em 2020, ou seja, em menos de três anos.

Um dos responsáveis pela linguagem visual adotada por essa nova linha de automóveis é o brasileiro Marco Antonio Pavone, chefe de Design Exterior da Volkswagen. Em seu currículo, há projetos como up!, T-ROC e também a nova geração do Polo. Mas, para ele, desenvolver o visual dos carros que representam uma nova era para a Volkswagen foi um desafio até maior. Confira abaixo a entrevista realizada durante o Salão de Frankfurt, na Alemanha.

Quando vocês começaram a desenvolver a linguagem dos carros elétricos da Volkswagen?
Acho que foi um pouco antes do Salão de Paris do ano passado. A gente recebeu a tarefa de fazer o I.D, que significava a reinvenção da marca com carros elétricos. E aí começamos a pensar e a aprender coisas novas, porque a proporção do carro elétrico é outra. É tão excitante fazer parte disso, porque a gente começou do zero.

Quais foram as inspirações para desenhar? Há referências do mundo extra carro?
Eu, particularmente, nunca penso em carro quando preciso desenhar um carro. Eu fico bloqueado. Prefiro me inspirar em viagens, arquitetura. Mas o nosso primeiro desafio nesse projeto era tentar descobrir um novo jeito de tratar a superfície do carro. Um modo menos pragmático, mais humano. Porque, olha o contrassenso, o carro elétrico é frio! Ele não tem som. O carro a combustão parece ser mais emocional: quando você liga, ele tem barulho. Então, o nosso desafio era resgatar o “calor” do carro elétrico com novos materiais, novas formas.

Como foi desenvolver uma nova linguagem visual para a nova gama de carros elétricos da Volkswagen?
O mais legal foi poder trabalhar com toda a proporção do carro logo de cara. Pelo simples fato de não existir o motor ali na frente. Com isso, você consegue colocar a coluna A para frente, porque o motor não está mais atrapalhando. É só pensar que na maioria dos casos, quando você vai projetar um carro novo, até 35% do espaço da dianteira do carro vai ser destinada ao compartimento do motor. No caso dos carros elétricos, isso não acontece, porque você consegue colocar o motor e as baterias acopladas em baixo, na plataforma. Isso libera um espaço danado para o interior. Olha só o I.D., que mostramos no Salão de Paris: tem um tamanho semelhante ao do Golf, mas seu espaço interno é quase igual ao de um Passat.

O que mais foi possível fazer diferente nesse projeto?
Bom, com o motor e as baterias embutidos na parte debaixo da plataforma, os carros ficam mais altos, com cerca de 130 milímetros. Aí você consegue trabalhar com rodas maiores, para garantir a proporção. Todos os carros elétricos que estamos desenvolvendo têm rodas maiores. O I.D., por exemplo, tem rodas aro 21, sendo que a maior roda disponível para o Golf é aro 18.

Outra coisa interessante: sem o motor na frente, o balanço dianteiro – o nariz do carro – fica mais curto. Isso garante um design mais moderno, sem grande esforço. O carro fica assentado de uma maneira bem mais esportiva. Olha só, eu só falei da arquitetura básica do carro, nem comecei a falar sobre estilo.

Então, vamos falar de estilo. O que vocês desejavam transmitir com o design da família I.D?
Tendo essa possibilidade de trabalhar as proporções do carro de uma maneira diferente, passamos a pensar em uma nova linguagem gráfica para a linha de elétricos da Volkswagen. O I.D. Crozz, que é o crossover mostrado aqui em Frankfurt, tem o teto preto, alumínio na coluna A e C e vários elementos de estilo. Há por exemplo uma linha circulante, escultura bem interessante, tem uma arquitetura. Nós tentamos trazer uma linguagem inesperada, mais humana, mais natural.

E quando a gente vai desenhar a frente do carro, você vê, a gente não precisa mais de grade na dianteira, porque não há mais o motor. Aí fizemos o logo iluminado e os faróis com led, elementos que estão sozinhos ali. E de repente a gente lembra dos nossos primórdios, lembra do Fusca? A gente também usou muito o efeito 3D e a gente também condensou toda a entrada de ar só na parte inferior.

E o quais elementos a gente pode esperar em um carro de produção?
Quando a gente faz um show car a gente procura trazer as soluções mais plausíveis possíveis. A gente não vai oferecer nada que não seja possível colocar na rua em um futuro próximo. Outras marcas poodem ter um posicionamento diferente, mas nós nunca usamos elementos que não podem chegar ao mercado, pelo menos a médio prazo.

Por: Tereza Consiglio
Fonte: Revista Auto Esporte

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